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terça-feira, 2 de outubro de 2007

Ah, os começos...

Fazendo o cadastro pra começar o blog, me pego pensando: "PRA QUÊ, Deus do Céu?" Pergunta retórica, certamente. Igualzinha àquelas tantas que me faço a cada minuto. Engraçado, isso... Vinte e tantos anos, e ainda não acostumei. Bom... que seja. Não obtendo resposta, prossegui com as devidas burocracias - até pra isso!! - até ler a mensagem: "pronto! agora você já pode postar seus textos e dividir com seus amigos". Imediatamente, a pergunta retórica do momento passa a ser: "PRA QUEM, Senhor?" A partir daí, dois pés no freio. Afinal, nem consigo lembrar quando foi o exato momento em que me dei por conta de que a minha cabeça era um balaio de palavras. Desses balaios grandes, que a gente vê nas lojas em troca de estação, cheio de coisas que as pessoas compram pra nunca usar, ou de coisas que sobraram em algum canto escurinho do estoque. Só sei que, vendo o balaio cheinho de todo o tipo de badulaque, a solução pra evitar o risco iminente de transbordamento era tentar organizá-los, colocando cada um no seu lugar certinho, bem etiquetado. Pra isso, usei caderno, bloco, livro, guardanapo, parede de quarto. Fui do giz-de-cera ao cotoco de lápis. Do cotoco de lápis à caneta Bic. Da caneta Bic à caneta Bic de 4 cores, logo promovidas à 10 cores, logo promovidas à 12 cores com cheirinho (!). Fui da letra desenhada com habilidade motora duvidosa, aos quadradinhos mágicos do teclado. E assim por diante. Tudo o que me engasgava, escrevia. Tudo o que eu desejava, escrevia. Tudo o que me enfurecia, escrevia. Sempre escrevi sobre tudo, e sobre o nada. E sobre mim, e sobre os outros. E sobre o que eu pensava, e sobre o que eu pensava do que eu pensava. E sobre o que acontecia, e sobre o que que queria que acontecesse. Montes e montes de palavras, que na maioria das vezes só poderiam mesmo fazer sentido pra mim. Isso, quando faziam algum sentido. Mesmo quando não faziam, criava por elas um carinho como aquele que a gente cria por quem nos dá um colo. Porque sempre foi isso que elas fizeram por mim - o conforto e o aconchego de um colo. E justamente por isso nunca as dividi com ninguém. Alguém ler qualquer coisa que eu tenha escrito seria como ler um diário, mesmo que, de fora, parecesse mais um balaio cheio, onde nunca se acha o que se procura. Mesmo que as coisas não estivessem escritas claramente. Por isso, o espanto comigo mesma. Escrever num blog seria o mesmo que tirar a roupa em público. E cá entre nós, mesmo o maior dos narcisistas não se sentiria à vontade em tal situação. Então, percebi que a tal frase estava redondamente equivocada. O cadastro deveria vir acompanhado de um sonoro "pronto! agora você já pode ficar nua em rede mundial." Ou um "pronto! agora todo mundo vai saber dos seus maiores segredos." Porque no fundo, é assim que eu vou me sentir. Pra evitar isso, já bolei uma estratégia - mais uma das habilidades do meu cérebro hiperativo. Não dar o endereço do blog pra ninguém! Genial. Assim, não corro o risco de um conhecido me pegar com as calças na mão. E nesse caso, literalmente.